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Obrigado moças do samba, obrigado moças do mundo!

A segunda-feira não poderia começar melhor com data tão especial. O dia internacional da mulher. Particularmente, não concordamos com a data em si. Não por merecimento. Pelo contrário. Temos certeza que antes de instituir um dia específico para a mulher, como foi feito há 100 anos, seria muito mais necessário reconhecer o valor feminino no mundo, suas nuances, suas qualidades sem qualquer distinção. Este centésimo dia internacional das moças-como preferimos chamar- deve ser comemorado, claro. Mas, temos certeza que pelo menos aqui, no Ocê no Samba, a comemoração segue diária. Pois, no samba há uma real valorização da sambista. Hoje, toda nossa programação de textos será feita em homenagem às moças. Pedimos para algumas figuras de nossa cena sambista uma pequena história e suas carreiras e uma mensagem à todas mulheres do samba e do mundo. O Ocê agradece a existência do mais belo e terno dos seres que merece nossa atenção hoje, amanhã e sempre.

Veja o que algumas sambistas de BH contaram sobre suas vidas no samba e o significado da música em suas vidas de artistas do batuque e claro, conheça mais um pouco o que elas pensam e fazem quando estão fora do palco, fora de uma roda.

Dóris (Dóris e banda)

A admiração pelo canto, gostar de cantar, iniciou na minha vida quando eu tinha 10 anos. Estudei no Instituto de Educação e tínhamos aula de canto. Lá eu comecei a fazer de aula de violão. Eu tocava e cantava nas festas da escola em sala de aula (dias das mães, festa da primavera). Morria de vergonha, era muito tímida. Tenho muitas influências femininas , mas quero destacar três, porque foram, nessa ordem,  as primeiras influências. Minha maior influência é minha mãe. Apesar de não ser cantora, nunca ter estudado canto, ela cantava maravilhosamente bem. Canto suave, alegre e canções que hoje fazem parte do meu repertório.

Outra influência, Maria Alcina (recentemente ela esteve em BH no projeto chamado, se não me engano, “Dois tempos”, realizado no parque municipal, aos domingo). Fui para vê-la, escutá-la e o meu maior desejo era dizer como ela me influenciou, mas segurança daqui, dali, ficou só na vontade. Nesse dia ela era convidada do Renegado. A música FIo Maravilha, que ela interpretava, eu fazia igualzinho, nos ensaios em casa. Um timbre que até então eu achava “grosso” e hoje eu sei que é “grave” e Elizeth Cardoso, que nem dá para fazer comentários,eu só lamento de não ter conhecido.

Depois desse primeiro momento,me dediquei totalmente aos estudos e ao trabalho. Mas ouvia  música em todos os momentos e quando podia, qdo dava estava cantarolando.Até que em 1993, comecei a cantar como back-vocal, na Banda Afro Porto de Minas, que hoje é a Berinbrown . Como um chamado  Divino, em 2000 elaborei e lancei o Projeto Pedagógico Cantando a História do Samba, que tem como objetivo divulgar, preservar a memória social e cultural do Samba,sendo nosso público alvo professores , alunos e a sociedade civil. Esperamos ter como resultado o reconhecimento e pertencimento da nossa História através da cultura, fortalecer a auto estima, identidade do nosso povo negro, de todo povo brasileiro, buscando assim uma sociedade igualitária. Deixo esta mensagem por tudo que cantar representa na vida de uma cantora.

É nossa Fé a oração que nos guia… (Canto de Fé – Barrão e Cabral)

Quando eu canto,é para aliviar meu pranto. E pranto de quem já,tanto sofreu

Quando eu canto,Estou sentindo a luz de um santo,Estou ajoelhando, aos pés de Deus
Canto para anunciar o dia, canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite,canto também contra a tirania, canto porque numa melodia.

Acendo no coração do povo,a esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz! (
João Nogueira e Paulo César Pinheiro)

Analu (Zé da Guiomar)

Percussionista de mão cheia, Analu diz que só toca, mas já a flagramos mostrando talento também no canto. Crédito: Zé da Guiomar

Ainda não iniciei minha carreira como cantora, na verdade sou PERCUSSIONISTA da banda Zé da Guiomar! Cantar no ZDG, no meu caso, é no máximo respondendo um corinho. Bom, como percussionista iniciei os trabalhos há uns 10 anos tocando em diversas áreas diferentes. Meus mestres foram vários, mas dentro do samba e principalmente do choro, o seu Zito, (que toca no chorinho do bolão) e o  Zazá, (infelizmente recém falecido, tocava no Cartola aos domingos). Bom, não pensei em nenhuma mensagem específica, mas posso dar o meu parecer pessoal. Adoro ser mulher, e mesmo carregando tambor pra cima e pra baixo, adoro ser feminina e ser tratada com bastante respeito! Salve!

Nota do Ocê: A contestação da Analu sobre não ser cantora veio porque ao enviar-lhe as perguntas sobre a carreira, esquecemos de mudar o ramo dela no samba. Não foi por mal, Analu(risos). O sono de quem enviou o e-mail foi mais forte e tirou a concentração. Porém, sabemos que és sim uma PERCUSIONISTA das mais admiradas em BH. Um abraço da equipe do Ocê.

Janaína Moreno

Canto desde que me entendo por gente, e em cada fase da vida gostava de uma cantora. Na adolescência ouvia muito os Mutantes e sendo assim, Rita Lee. Depois fiz um espetáculo que era inspirado na musa, Dalva de Olveira. Duas boas influências né, não?! Mas minhas maiores influências estavam ao meu lado, no dia a dia, em casa. A presença das mulheres na minha familia sempre foi mais signicativa do que a dos homens. Sem juízo de valor. Simplesmente aconteceu. Minha avó ficou viúva muito jovem e não se casou novamente. Ela era cantora  da vida, cantava o tempo inteiro, lavando roupa, plantando, colhendo, se banhando no rio… E tinha muito bom gosto. Minha mãe também ficou viúva muito jovem e eu espero quebrar este protocolo da família (risos). Felizmente estas duas figuras me apoiaram muito. São minhas primeiras ídolos e minhas primeiras fãs, minhas maiores influências. Tenho sorte!

Profissionalmente, comecei a cantar foi com um grupo de crianças cantantes em BH, o Grupo Arco-íris. Eu tinha 9 anos. Nunca mais parei de cantar. Me formei em teatro e curiosamente sempre fiz personagens que eram cantoras ou que cantavam em algum momento. A música já me estava  dentro! Ô Sorte! Depois veio o Samba da Madrugada e como consequência esta que vos escreve, Janaína Moreno (é que meu nome de batismo não é esse não! mas isso eu conto em outro momento).

Eu sou uma colecionadora de cantoras, me encanto com muitas. Hum.. Vejamos, uma musa do passado eu escolho Elizeth Cardoso! E uma musa da atualidade eu escolho, Fabiana Cozza!. Para o dia de hoje, vou citar Elisa Lucinda, uma artista que eu admiro muito. Suas poesias também são minhas…

AVISO DA LUA QUE MENSTRUA – Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!

Há que se ter cautela com esta gente que menstrua…
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita

Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na “vera”
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a “cidade secreta”
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!…
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha…
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

Michelle Andreazzi (Capim Seco)

Comecei a cantar não sei exatamente quando… Talvez desde o momento em que comecei a emitir sons. Profissionalmente, já tem quase 7 anos. As influências femininas que recebi com relação ao canto foram as do meu pai e da minha avó. Lembro do meu pai porque ele carregava algo do feminino em seu canto, que mesmo grave e rouco era cheio de sensibilidade e instinto. A minha vovó Lígia também muito me influenciou, era um cantarolar na cozinha despretensioso. Me ensinou que cantar e respirar são a mesma coisa. Depois vieram as feiticeiras Elis Regina, Maria Betânia, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Mônica Salmaso, Fabiana Cozza e até a Meredith Monk. E dentre todas “elas” um “ele” também cheio de força feminina no seu canto: o Bob Mcferrin!!!


Parabéns para as mulheres e também para os homens que conhecem a mulher em si. Hoje é dia de celebrar mais que a mulher, é dia de celebrar o feminino e a disseminação dessa força em todos e seres!!! Viva a intuição, viva o afeto, viva a lua!!!

Marina Gomes (cantora solo e do Roda Viva)

Comecei minha carreira bem jovem. Vim para BH aos 18 anos para estudar (ela fez Geografia e dá aulas). Musicalmente iniciei a vida tendo aulas de canto com Regina Milagros, de percussão com Serginho Silva, na Universidade de Música Popular (Bituca). Estou desde o início no Roda Viva, onde se exalta e reflete o samba feito aqui. Em 2005, fundei a banda “Marakáh”, ficando dois anos. No mesmo ano, com Alexandre Resende, surgiu o Samba da Silva, que, além de várias apresentações em bares de Belo Horizonte, abriu o show da banda Pedro Luis e a Parede, durante o Festival Lixo e Cidadania de 2008.  Realizei com a Josi (sua produtora) três edições de um projeto chamado “Nós e o Samba” em Divinópolis (sua cidade natal). Era uma grande roda de samba integradas por músicos da cidade e da capital. Com a benção da música de Ivone Lara e Délcio Carvalho, eles dão o nome ao show Minha Verdade, que mostro meu trabalho solo. No show me inspiro neles, na Alcione, que adoro, Clementina de Jesus, Elis Regina, Clara Nunes. Cantoras lindas não faltam e elas com certeza já são a melhor mensagem num dia como o de hoje. Do real espaço da mulher no mundo. Da sua beleza e importância sem igual. Elas já disseram muito. Basta seguir seu exemplo.

Aline Miguez (Camarão de Rama)

Eu admiro muito as cantoras que fazem MPB  com toques de samba como Marisa monte, a Elis, Maria Rita, Leila Pinheiro, Roberta Sá .  Acho muito bonita a voz feminina. O vocal feminino. Ele faz a diferença sim. Agrada muito uma voz de mulher no palco. Sempre ouvia elas. Desde pequena. Sempre cantei em casa sim, desde de pequenina, mas aos cinco anos, timidamente, me apresentei em público para cantar Carinhoso, no palco de um bar que meu pai tocava. Aprecio muito a voz feminina como dito, embora  a considere cansativa, por isso, gosto do diferencial do Camarão que mescla os vocais, afinal, a completude entre homens e mulheres é uma das coisas mais perfeitas, dentre as criadas por Deus.  Temos uma essência divina que nos é peculiar, e que não pode deixar de ser observada, embora, fique contente com cada conquista por direitos iguais!

Fica o recado então: Mulheres, apliquemos, pois, esse nosso “jeitinho especial” na construção de um mundo melhor! Que comecemos a edificação no nosso próprio lar, e com as pessoas que a nós estão mais próximas! Sintam, assim, a perfeita harmonia entre homens e mulheres, sem competição, mas de mãos dadas na concretização dos sonhos divinos!!

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2 Comments

  1. Posted 8 de março de 2010 at 5:26 | Permalink

    Belíssima homenagem!

    Obrigada a vocês e parabéns às mulheres maravilhosas,que os tornaram homens tão sensíveis.

    Abs!

  2. João Peixe
    Posted 8 de março de 2010 at 12:33 | Permalink

    Pra mim voz feminina sempre foi um assombro, um mistério, hipnótica, encantadora. Misturada com música então…

    A voz masculina é explicável, indo de Tim Maia a Caetano. Gemida para cantar música triste e escancarada para cantar música alegre.

    A voz feminina… é … feminina, ou seja, tão inexplicável quanto elas próprias. Desde Nara leão cantando música alegre a Edit Piaf cantando música triste.

    A Dóris vêm que "lá evem quente" puxando mais gente igual locomotiva (locomotiva tem nome feminino, vagão, nome masculino, estou confuso)

    No último parágrafo, a jovem intérprete e compositora me intriga quanto a sua filosofia do "trato com as pessoas e com o mundo" Estará ela querendo negar ao sexo masculino o direito de ser afetuoso ou "carinhoso" como diz a musica?. Mas no fundo eu entendi: essência feminina… é difícil de explicar mesmo, daí que os homens vão amando essa tal de essência feminina sem saber porque.

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